24.6.17

Aviso à navegação - Évora, Rua de Serpa Pinto número 6

As pessoas que passem em Évora à frente do Art Café, sito nas instalações do Inatel daquela cidade devem ter cuidado com um risco à navegação.

À frente da porta desenvolve-se uma poderosíssima corrente aspirante que nos leva para dentro do café e nos impede de sair. É uma espécie de buraco negro que em vez de usar a gravidade para atrair passantes incautos usa a beleza do pátio, a qualidade da música - qualidade em dois sentidos: a da selecção musical e a da reprodução - a simpatia do serviço e (diz-me quem sabe) a qualidade das saladas ao meio dia.

Passando em frente da porta ninguém no seu perfeito juízo consegue resistir a entrar; uma vez lá dentro só um louco sai sem para isso ter uma razão de vida ou de morte.

Três palavras, devagar

Digo "quero-te". Digo "Amo-te". Digo "És linda". Deixo as palavras escorrerem-te na pele como se fossem os meus dedos nos teus seios, os meus lábios nos teus, os meus olhos no teu ventre: com leveza e voluptuosidade, lentidão e gozo, vagar, divagar, devagar, surpresa há tanto anunciada e esperada.

Quero-te: entram por mim as palavras que de mim saem; amo-te. Sou teu. A elas me entrego como aos teus dedos, os teus olhos, a essa maneira tão lenta que tens de sorrir.

Sorris devagar; amas devagar; vives e nessa superfície lisa do lago albergas-me, a mim e às minhas palavras simples, desajeitadas e verdadeiras.

Não sei mentir: como sou me dou. Como és te recebo.

Devagar.

Para a C. V., com amor devagar.

23.6.17

Ordem, desordem e uma breve consideração sobre algumas hierarquias

Ontem escrevia a alguém que é muito mais do que alguém e mencionei a expressão "ordem alfabética". Ocorreu-me (o tema prestava-se a isso) perguntar a essa pessoa que é mais do que uma pessoa (no sentido em que os artigos definidos são mais do que os indefinidos: a pessoa) ocorreu-me, dizia, perguntar-lhe "haverá uma ordem desalfabética?" Ou, talvez mais adequadamente, uma desordem alfabética?

Quanto à superioridade dos artigos definidos: não são os artigos, mas aquilo que eles designam.

Palavras novas, atitudes antigas

Saio do médico com uma "receita sem papel" (está no telefone portátil).

Como é que um velho conservador rebelde que sempre detestou papelada vai reagir à digitalização da vida quotidiana? "Estou farto de digitalizadas"?

21.6.17

Confusão

Sei o que é confusão. Quando cheguei a Bujumbura vivi duas ou três semanas no meio de uma confusão indescritível. Uma delegação que se preparava para ser fechada  (com pompa e festejos) viu-se a braços com trezentos e sessenta mil refugiados em pouco mais de um mês.
Ninguém, nada estava preparado. Faltavam pessoal, material, equipamentos, linhas de comunicação, remédios, comida, água, camiões. As agências tinham enviado para o Burundi o pessoal de que dispunham, pouco e o mais das vezes impreparado (exceptuavam-se as que já lá estavam, mas mesmo assim com programas completamente diferentes).

Sei o que é confusão, quão fácil é fazer erros nessas circunstâncias. Não é a isso que atiro pedras. Tão pouco penso que se devem começar a atirar já. Mas que se devem preparar as fisgas disso não tenho dúvidas. 

Objecção contra a modernidade

Dormir sozinho numa cama sem estar sozinho fora dela: louvável prática ancestral que os tempos recentes condenaram.

Pior: inverteram. Hoje anda-se sozinho fora das camas porque estão sempre cheias.

20.6.17

Cont.

Foi obviamente o fogo que nos uniu. Não o que grassava por esse país fora mas o que nos consumia.

Devia, para ser exacto, dizer "fogos", no plural. Eram muitos, exacerbados pelo calor, a ausência de vento.

Cada uma das nossas conversas fazia-me sentir numa peça de Sartre encenada pelo pior aluno da turma; o acto mais simples e anódino transformava-se numa epopeia existencial. Beber um copo de água levava-nos ao inferno. Rita Maria - o nome talvez seja falso, claro - não conseguia viver sem estar em levitação a dois metros do solo; à mais pequena questão ameaçava cair. Levei algum tempo a perceber que o objectivo de viver no ar era poder ameaçar e não o inverso: ela não ameaçava porque vivia no ar; levitava para poder cair.

Um dia propus-lhe que se alcandorasse numa coluna. Sempre tive uma admiração  sem limites pelos estilitas e a perspectiva de coabitar com uma - excluindo o problema prático do sexo - aliciava-me. Além de que deixaria, caso aceitasse, de poder cair e as ameaças ficariam assim vazias de sentido.

( Precisão: Rita Maria gostava de sexo e descia todas as noites uma hora para a ele se dedicar com empenho, carinho e técnica. Descer da coluna seria decerto mais complicado. Ou pelo menos a ela subir de novo).

Não sei. Sei apenas que viver num estado perpétuo e permanente de avaliação, repetição e clarificação de cada frase que dizíamos era esgotante, levava a um consumo exagerado de álcool e cigarros e ainda por cima era inútil: nenhum de nós mudava a sua percepção do que o outro dissera por causa das sessões de esclarecimento, como eu lhes chamava.

Daí a ideia da coluna. Santa Rita Estilita soava-me bem. Tê-la a quatro ou cinco metros em vez de dois idem. Perderia decerto as magníficas sessões quotidianas de sexo, mas isso parecia-me mal menor.

Educação sentimental

Ao contrário do que frequentemente se pensa, a parte mais importante da educação sentimental não é aprender a amar.

É aprender a ser amado.

Diário de Bordos - Praia da Luz, Algarve, Portugal, 20-06-2017

Vim ao Bull, onde estive no sábado. De que ano? De que vida? 

O Irish Coffee está perfeito. A temperatura também. O mar deixou de se ver e as inglesas feias vão para dentro porque está frio.

O céu - ou a parte dele que se vê - está confuso. Cumulus estratificados,  altos e por cima disto tudo cirrostratos, a lembrar que o dia começou assim, nebulado e cinzento.

Invejo as pessoas que têm certezas e lamento-lhes a ausência de dúvidas. Se saber muito é bom, como será saber tudo? E não saber nada?

Isto eu sei. É como estar numa piscina de puré de batata demasiado líquido e não saber nadar. A imagem é francesa mas o sentimento universal. 

Fragmentos, Vésperas

O meu mar é outro: o da dúvida,  do medo,  da "inabilidade fatal" de que falava o velho Arthur antes de ir vender armas aos etíopes,  um povo tão bonito quanto altivo e guerreiro. Que se foda o mar: o rapaz pôs o vinho tinto no congelador e agora está fresquinho. 

O vento caiu e as vagas parecem rugas no rosto de uma jovem trintona, à espera do amor ou do amante, vai saber.

Um velho adágio inglês explica a colonização britânica como sendo uma busca por "melhor clima, melhor comida e mulheres mais bonitas". Há muito que o sei justificado mas alegro-me cada vez que o confirmo. Salvo raras excepções os ingleses não têm sorte com as mulheres. 

Vou perder a camionete por cinco minutos. Hoje vi um quadrado do Calvin no qual ela explicava ao Hobbes que "a realidade continua a atrapalhar a minha vida". Podia elaborar horas sobre isto mas prefiro olhar para o mar - cujas rugas se atenuam porque há cada vez menos vento ou, quem sabe?, o amor está cada vez mais perto -.

Silentio felicitas

A vantagem do sexo oral é obrigar pelo menos um dos intervenientes a estar calado durante meia hora.

Paráfrase

Se você pensa que as putas são caras experimente o amor.

Humor público - privado

Organizar uma viagem entre dois pontos do Portugal profundo não ligados por uma linha / meio de transporte directo faz-nos perceber imediatamente porque não há humoristas neste país.

Estão todos empregados em empresas do sector público ou em organismos do sector privado.

19.6.17

O que sai na rifa

Passava as horas a reclamar contra a malvada da sorte, que não lhe premiava as rifas que todos os dias comprava.

Uma vez saiu-lhe o primeiro prémio. Não o foi buscar: a ideia de não ter nada contra o que reclamar era-lhe insuportável. 

Remédio

Na longa, interminável lista de maleitas de que padecia incluía ser amado. Era a sua preferida: não tinha remédio. 

A causa e a culpa

Esta incapacidade nacional, colectiva, de pensar, separar a causa da culpa.

Como se em português reflectir e acusar fossem sinónimos.

18.6.17

Papelão

A mulher era lésbica - via-se à légua  - e feia como aquelas máquinas de alcatroar ruas do antigamente - isso via-se de perto - mas nenhuma das duas condições explica ou justifica o que ela fez.

Atribuo mais a causa a uma fraca imagem de si própria, a um desejo de vingança de um heterocoiso patriarcal ou a um desconforto com o resultado da rifa.

Tenho pena por ela e espero sinceramente que a vida não lhe dê mais momentos de amargura como o que eu lhe proporcionei: deixei uma folha de cartão de para aí quinze por vinte e cinco centímetros - dobrada em quatro, o cartão era fraquinho - em cima da cadeira do café para que a empregada a deitasse fora.

Veio a correr atrás de mim, apanhou-me porque eu parara numa loja de chineses, fez um grande sorriso e fisse-me "Esqueceu-se disto na cadeira".

Recebi o agora quadrado tosco de talvez oito centímetros de aresta - mais as dobras verticais, claro, não passara aquilo a ferro - e ainda tive tempo de a ouvir dizer "Ponha num papelão".

Dez minutos depois voltou a passar por mim - penso que era uma cliente do café e não uma empregada ou a proprietária -; vinha acompanhada por outra senhora, globalmente igual a ela. Mas não me disse nada. Desviou o olhar, até, quando a mirei para lhe retribuir o sorriso de pouco antes.

17.6.17

Palavra falada

Na e pela palavra te amo.

Falo. 

Semântica ferroviária

A viagem para o Burgau foi mais uma daquelas viagens portuguesas que só a CP pode proporcionar ao viajante. Será contada, um dia quando voltar a ter um computador portátil que funcione - isto é, não seja da marca Asus -.

Há contudo um episódio dessa viagem que não deve esperar: o percurso de Tunes a Lagos, passado na cabine de pilotagem do comboio, a conversar com o condutor e a aprender imenso sobre a condução de comboios.

O ponto alto dessa viagem foi, contudo, de ordem semântica: fiquei a saber que o ramal de Lagos é "muito encostante".

Isto é: tem muitas encostas.

Amor, calor

As estratégias para lidar com o calor são semelhantes às que se devem usar se de repente o amor - o. Artigo definido singular que podia ser grafado em caixa alta - se de repente o amor. O amor.

Isto está confuso. Deve deixar-se o calor escorregar por nós. Devemos unir-nos ao calor com a entrega de quem sabe que lutar contra ele só piora as coisas. Deve beber-se cerveja gelada, vinho branco bom, chá de gengibre forte e frio, sentados numa esplanada a olhar para o mar - que no fundo é a vida - sem se fazer muitas perguntas nem às bebidas, nem à vista nem muito menos à vida.

O calor e o amor são ambos em igual medida uma promessa, chegam quando têm de chegar e devem ser acolhidos com alegria, dignidade e gratidão.

É na pele que o calor e o amor se sentem. É por ela que entram em nós, para ficar.

Portrait exprès

Une de ces femmes que tu amènes à l'autel sans même avoir besoin de passer par l'hôtel. 

16.6.17

Dispersas políticas

"Com amor é mais caro", diziam as putas quando eu era adolescente. O dito aplica-se à perfeição a quem se extasia com a dupla Costa & Centeno: estão a foder o país à grande e à francesa, mas "com amor". Quando chegar a conta vamos  poder aferir o preço de tanto carinho.

.........
Os juros portugueses continuam altos, apesar dos génios que nos governam. A principal razão é, obviamente a ganância dos "mercados" (entre aspas).

Há uma coisa que eu não percebo: por que raio de carga de água são os "mercados" (entre aspas) menos gananciosos com a Alemanha, que até tem mais massa do que nós? 

Coisas de luz / II

É preciso ir buscar o sono onde ele está: no fim de cada palavra, naquele sítio em que a palavra começa a cair e leva com ela a luz. Cada palavra tem a sua luz, diferente da seguinte e da anterior.

Viver é brincar à cabra-cega com as palavras: palavra-cega. As palavras têm luz. Dá para um muro, um abismo, um passado. Só as palavras que ainda não foram ditas têm futuro. As outras nem já presente são.

Tacteias no recreio mas estás sozinho: a palavra-cega é um jogo solitário, obscuro.

- E a luz?
- É preciso ir buscá-la aonde está: no fim de cada palavra; quando esta deixa de o ser, naquele preciso instante em que palavra e passado se fundem. É aí que vive a luz.

- Apaga a luz e dorme.
- Cala-te

Coisas de luz

Estávamos a falar do dia, da noite e da luz e eu disse-lhe "espera, luz é de dia " e ela respondeu "não. Luz é sempre".

Bateu na mesa como se me quisesse dar um murro.

"Quando tu falas de amor não te referes só a uma parte dele, pois não? De Arvo Pärt, Hildegarde, Miles a uma parte da música?

É preciso falar da luz. Toda. A da noite e a do dia. Começar com as Vésperas de Rachmaninov, com a Ressurreição de Mahler, com a luz difusa da porta do Tabernáculo,  com a luz daquela pele que te deseja.

Começa pela luz. Começa por Pärt. Começa por ti nessa pele, no mercado de Ver-o-Peso, na luz glacial, branca e quase invisível do extremo-Oriente russo. Começa pela luz densa do olhar de uma rapariga de dezanove amos que te ama. Aos dezanove anos tudo é denso, da luz ao desejo. Imagina-te na neve. "Qual a diferença entre imaginar e recordar?"

Nenhuma, estúpido. A imaginação é a memória do que ainda não aconteceu. A memória é o que poderia ter acontecido, imaginado hoje à luz deste fim de dia esvaído. Pärt, Hildegarde no abominável som do telefone.

Literatura, muita. Pensa assim: um dia vais querer a pele que te quer. Aliás: um dia vais querer a pele que queres. Não: tens. Tira os dois pontos e a confusão será total. Querer e ter são coisas diferentes, sabe-lo desde os dois anos de idade. Qual confusão?

- Estás a confundir memória e imaginação.
- E tu pele e desejo.

Há cidades nas quais a luz tem a forma de uma serpente gigante que a envolve sem ela (a cidade) saber.

Noutras, como Lisboa a luz parece-se com um pote de mel que alguém  (provável mas não seguramente chamado Leonard) entorna com um sorriso nos lábios.

O mel chama-se "Ausência". Ao fim de muitos anos é enjoativo, mas deixa a cidade entregar-se-lhe e vais ver como fica: limão.

(Dizia o ceguinho, entre parênteses).

15.6.17

Abismos, malvadez

Este incidente com o cartão de débito é uma chatice com M maiúsculo. Provoca arrelias várias  ("arrelias" porque estou em modos cruzados understatement e bem-educado). Tem, claro, a dúbia e pírrica vantagem de não me permitir gastar muita massa na Feira, mas tirando isso é um regresso a dois passados e a uma confirmação: há entre mim e o dinheiro um abismo de incompreensão mútua; por vezes deixa-se atravessar por uma ponte ou outra. Pontes temporárias, frágeis, ilusórias. Nem quando tenho dinheiro tenho dinheiro. Felizmente tenho amigos. Não o substituem mas pelo menos atenuam-lhe a malvadez.

14.6.17

Bênção?

Perder o cartão de débito  (e com ele todo o acesso às parcas massas) em vésperas da Feira entra na categoria Bênção?

Biologia

A partir de uma certa altura ter amigos é mais importante do que ter família.

Os SDF são gajos que não têm amigos; não gajos que não têm família. Família toda a gente tem. Por uma estranha torção da biologia é mais fácil a um familiar ver-nos a dormir na rua do que a um amigo.

Neste ponto (mas só neste) Margaret Tatcher errou. Verdade seja dita: não foi a única. Há centenas de anos que nos enchem o saco da biologia.