17.2.18

Partes e outros

Algumas partes do meu corpo não me parecem minhas. É como se precisassem de ser tocadas para as sentir parte de mim. Quem fala nos outros como se não fôssemos nós não percebeu nada.

16.2.18

Diário de Bordos - Lisboa,16-02-2018

É preciso dar graças: os males sucedem-se mas não se acumulam. Veio uma espécie de gripe mais a cair para a constipação e foram-se - empurradas, aposto - as vertigens. Ora imaginem se em vez de se empurrarem se acomodavam umas às outras... Seria eu um albergue espanhol para vírus, batérias e quejandos; e quem me recebe uma espécie de agência de viagens. Antes assim, tipo comboio: amarradinhas mas seguindo-se. O meu sistema imunitário anda por baixo, é verdade: mais sensível do que eu (está longe de ser difícil) reage pior aos estímulos que de fora lhe chegam. Às más vibrações, por assim dizer, se fosse hippie ou new age e acreditasse nisso das vibrações que são simultaneamente particulas e enviamos uns aos outros, etc.

Não acredito em nada disso. Acredito em mim - este "mim" inclui o sistema imunitário, que hoje reforço com doses extra de whisky -. Para isso servia o rum dos antigos marinheiros: reforçar as fraquezas, como numa muralha os operários se despacham a pôr os tijolos que faltam. Les briques manquantes, diria em francês. E ainda há quem se admire de o francês ser uma ,língua elegante.

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Não percebo nada disto. Oiço um disco de Amélia Muge com um grego e o disco é soberbo.

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E dói-me a cabeça, mas isso tem a ver om a gripe, não é grave, meia dúzia de analgésicos e resolve-se a questão, mais meio litro de whisky mais cama mais o raio que parta esta porra toda.

Não há raio que parta esta merda toda. Ou sou eu ou não é ninguém, nem Zeus.

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As Núpcias de Cadmo e Harmonia é o melhor livro que li nos últimos duzentos ou trezentos anos, com algumas breves excepções. Penso nele enquanto a dor de cabeça aperta as mãos ao Paracetemol e ao whisky, com a música da Muge em fundo. A mulher canta como um deus vive: com a ligeireza e profundidade de quem sabe que saberá lidar com o que aí vem.

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Já eu vivo como um deus canta: indiferente a quem me ouve. Não é tão bom, mas é o que há.

15.2.18

Poesia de hoje

Fui ao Irreal ouvir Cláudia Sampaio ler o seu "Primeira urina da manhã". O livro é esplêndido. Cláudia leva quase à letra o que eu me recomendo: é preciso escrever com sangue.

Ela vive-o e escreve-o como o vive. Oscila entre a beleza de algumas imagens e a crueza de outras. A Cláudia e Miguel Martins são de longe os meus jovens poetas favoritos. E têm a vantagem não despicienda de mostrar que a poesia portuguesa de amanhã não vai estar amarrada ao surrealismo vigente.

Instruções

Il faut porter ses défauts comme un modèle porte des habits: avec désinvolture.

Inominável

Inominável é uma palavra que devia ser mais utilizada. Sub-aproveitada, por assim dizer. Beckett usou-a como título, mas lá está: era um génio.

Inominável é vasto: quase tudo é inominável, contrariamente ao que parece ou pensamos. Esta dor de cabeça, por exemplo: muito mais do que a cabeça dói-me tudo, o dia, a semana, o inverno, a esperança. Tudo.  Chamar dor de cabeça a isto não passa se uma simples ilusão, um comodismo, um facilitismo.

Inominável seria mais adequado. Não lhe dar de todo nome. Não me referir a ela, não para lhe esconder a existência mas porque é demasiado vasta para ser sequer perceptível, distinguível de tudo o que a rodeia.

Poderíamos viver num mundo de coisas sem nome? Ó pobre sombra ridícula, tu já vives num mundo de coisas inomináveis. Só não te apercebes disso porque alguém lhes deu um nome há alguns anos e tu habituaste-te a usá-lo, sem te aperceberes de que por baixo desse nome jaz um vastíssimo território de nada, de coisa nenhuma, um deserto inominável.

Vadeamos por aqui como uma criança pré-linguagem, mas como falamos e escrevemos e lemos não nos apercebemos do engano.

Inominável.

Madalena

Madalena era simultaneamente impulsiva e calculadora. Não ao mesmo tempo, claro: não saberia dissimular a que não estava a uso porque era uma pessoa fundamentalmente honesta consigo própria e com os outros. Mas a mistura - ou alternância - de um racionalismo frio, calculador, que pesava os prós e contras do menor gesto com uma explosão de sentimentos inesperada era difícil de gerir, tanto por ela como por mim.

Um dia enganou-se numa reserva de bilhetes de avião e acabámos por viajar em voos diferentes. Não foi engano, foi um impulso. Pouco tempo depois deixava-me, com grandes manifestações de pesar. Não eram impulsos, eram calculadas. Escrevia magnificamente e cantava melhor. Ou ao contrário, nunca percebi. Zangava-se muitas vezes comigo porque lhe dizia que devia cantar mais, profissionalmente.

Madalena foi o meu principal, maior, mais doloroso falhanço amoroso. Estou-lhe muito grato por isso: traçou uma linha que sei agora não devo pisar, sob risco de pesadas sanções. Felizmente há poucas mulheres como ela e o risco de tropeçar numa é nulo.

Só não percebo porque me obstino a procurar.

14.2.18

Sofrer e fazer sofrer

O presente é uma fraude fugaz e não penso muito nele. Mas penso em certas coisas do futuro e noutras do passado e apercebo-me de que em mim uma coisa não mudará nunca: prefiro sofrer a fazer sofrer.

Atitude que de resto me sai cara.

Meças, por pouco

Não tenho a mais pequena dúvida de que se cantassem em inglês Chico, Caetano e Simone pediriam meças aos Beatles.

No que me diz respeito ganham-nas claramente. Agora basta ensinar português a alguns biliões de pessoas.

Diário de Bordos - Lisboa, 14-02-2018

Ontem - ou terá sido anteontem? Isto passa tão depressa... - fui ao Irreal e pela primeira vez lá ouvi música medíocre; enfim, a música até era boa ou pelo menos assim-assim.  Terrível foram os textos das canções. Infantis, primários, desinteressantes, déjà entendu mil vezes. As melodias safavam-se. A flauta era um bocadinho pedante, mas quando o homem a trocava pelo sax a coisa ia.

O guitarrista e chefe da banda cultivava uma imagem à la Tom Waits. Fez-me lembrar o Chico António, que ouvi muitas vezes em Maputo e acentuava o seu lado Miles Davis. Apesar de tudo o Chico António era melhor do que este, além de que gosto mais de jazz do que de canção.

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Voltei a irritar-me com a senhora que agora gere aquilo. Infelizmente foi pouco, não ando com paciência para exorbitar sentimentos, sejam eles bons ou maus. E esta ainda por cima mal a conheço, não sei se é só um bocadinho parva se completamente idiota. Irritou-me ela ter transferido para a M., com quem eu estava, o mau-humor que normalmente é para mim. Há coisas que não gosto de partilhar.

A M. levou aquilo na boa, ontem encontrei um músico da Martinique (excelente. Toca lá todas as terças. Desta não cheguei a tempo, estive a apanhar uma seca de fado) e pronto, a irritação diluiu-se - apesar de ela ter tentado chatear-me outra vez e de novo falhado. [É para estas ocasiões que o verbo desconseguir foi inventado...]

Só espero é que isto não passe muito deste nível de desgosto mútuo porque a música é boa e o bar excelente. Adoro aquele lugar e não quero ter de deixar de lá ir por causa de uma bifa que ainda por cima anda de boné à Andy Capp, um dos meus heróis.

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Acho que me estou a repetir. Paciência. Como disse um dia Nuno Júdice "a repetição é um recurso do estilo". Ou coisa que o valha, cito de memória. Os meus livros ainda estão encafuados cada vez mais longe de mim, filhos da mãe. Para não dizer filhos da puta, expressão que tinha reservada para o meu pâncreas, até me lembrar que chamar filho da puta a um orgão nosso é como chamar a um irmão: por mais que o mereçam é chato para a senhora que os fez. Enfim, quero que o pâncreas se foda e para o provar acabo de comer uma tablette inteira de chocolate, coisa que já não fazia vai para muito tempo. Isto de matar o frio com vinho e café tem limites e a repetição tira bastante eficácia ao remédio.

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Só me apetece ir para a cama ler, mas o sacana do frio até isso torna difícil, não consigo ler com os dois braços debaixo do cobertor e o que está por fora enregela-se e me em menos de dois parágrafos. Tenho meia dúzia de livros à espera da clemência do tempo, mas hoje trouxe mais um do Institut Français, ando para o ler há demasiado tempo. Chama-se L'hiver à Lisbonne e é a tradução francesa (quem diria?) de El invierno en Lisboa, do Muñoz Molina. Se pudesse enchia uma banheira de whisky e metia-me lá dentro com uma tonelada de livros (estes ao lado, claro) e só saía quando o whisky tivesse acabado e estivesse cheio de frio outra vez.

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Reflexões profundas sobre a escrita: se leio merda tenho medo de fazer a mesma coisa; se leio uma coisa sublime sei que nunca conseguirei chegar àquele nível. Em ambos os casos o resultado é o mesmo.

(Não é totalmente verdade, mas é como se fosse. Comecei este blog porque li tantos tão merdosos que pensei "de qualquer forma pior do que isto o meu não será". Vão catorze anos e des poussières. Não tarda está um homenzinho).

O fado e a indecisão

A capacidade de indecisão dos portugueses só tem igual na sua incapacidade de decisão.

Não decidem: são decididos - pela "vida", esse fantasma omnipresente no cosmos português -.

T. S. Eliot dizia que havia uma terceira pessoa no seu casal. Em Portugal essa terceira pessoa é "a vida": somos permanentemente encornados pela "vida" e cantamos o fado para fingir que não sabíamos. 

Sentimentos, simetrias

Deve ser-se tão selectivos no ódio como no amor. São simétricos. Alguém que odiamos deve esforçar-se por merecer o nosso ódio. Da rapariga que trabalha no I. não sei sequer se é parva, quanto mais odiosa. Sei que não me grama, no que é perfeitamente correspondida. Vá lá, ao menos isso. Daí a ser odiosa vai um passo gigante e que do meu lado requer mais paciência do que a que agora tenho. Talvez mais tarde.

Isto dito, Andy Capp é uma das minhas personagens de BD favoritas e qualquer pessoa que se lhe assemelhe ou use acessórios próximos dos dele merece a minha simpatia.

Ninguém é imperfeito. Enfim, totalmente imperfeito.

(Curiosa, esta assimetria da imperfeição. Ninguém é perfeito, todos somos imperfeitos. Mas deve haver graus, não?

A perfeição não os tem, é digital. Já o seu oposto é analógico.
)

13.2.18

Medos

Breve troca com FPA sobre os vinis / CD.

As pessoas tem medo do futuro,  digo-lhe.

Não é só isso. As pessoas até do presente têm medo.

O vale de Cronos

O vale para o qual se resvala é o mesmo do qual se resvalou para o mundo.

Caveat emptor

Não menosprezar a superfície das coisas: seria como desprezar a pele de uma mulher.

Precauções: camisa-de-vénus para a pieguice; anti-obscuriótico a cada duas linhas; não vacilar nas doses de clareza ao menor sintoma de hermetismo. Mudez anti-verborreica; as aliterações são permitidas se forem premeditadas.

(Aliterações = metonímias, litotes, eufemismos e gama completa de etc.)

Exemplo: Zeus numa banheira cheia de água tépida. Uma mulher nua - pode ser a Europa das Núpcias de Cadmo e Harmonia - entra na banheira.

Zeus dá-lhe lugar: afasta as pernas, penetra-a - tem a erecção rápida -. A mulher tem um orgasmo, agradece a Zeus e sai da banheira.

Zeus adormece e afoga-se (por exemplo). A reter: mulher nua entra na banheira: palavras nuas, possuídas gozaram: não se sabe quem gozou quem. Zeus morreu afogado.

Doença, palavras

O melhor aliado da escrita é a doença.

(J.: "escrever é uma aberração anti-natural").

A morte é o melhor aliado da literatura.

Mas nada de homeopatias. Doses de cavalo. Doença como o ataque de um regimento de cavalaria chefiado por um gentleman encharcado em ópio.

Sinusoidal: morte doença e escrita ao longo de uma sinusóide cuja ordenada é a vida e a abcissa a falta de ar. Urgência.

Quinta e seguintes

O não-dito refere-se à pele das palavras;  o silêncio aos ossos.

(Substituir "ossos" por "traços que as formam".)

?

Cada um dos traços que as formam. ?

Ossos.

Terceira e quarta

Glissement, glissade, escorreganço, extension du domaine de la tragédie (ao português falta a dignidade do francês. Descamba logo tudo para o farfelu).

Há um plano inclinado entre a tragédia e a fatalidade, entre o silêncio e o não-dito. Simultaneamente nanoscópico e abissal, como a luz é ao mesmo tempo onda e partícula.

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"Há uma fenda em todas as coisas..."

Nesta não entra luz; entram palavras.

Tentativas de definição - primeira e segunda

Portugal, por exemplo é um país de não-ditos, mas não é um país de silêncios. A Suíça é o oposto, um país de silêncios onde se diz o que há a dizer. Em França nem silêncios nem não-ditos: diz-se tudo, de mais.

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A frincha entre a tragédia e a fatalidade: aquele nano pedaço de tempo no qual uma palavra ou um gesto poderia ter evitado uma ou outra (uma e outra seria um excesso de optimismo que não é para aqui chamado).

12.2.18

Silêncio

Descubro - graças à J., mais rios de gratidão lhe sejam dedicados - Natalia Ginzburg. O silêncio não voltará a ser o que era.

Antigamente, mentes antigas

Acabo de descobrir mais um blog sobre a Lisboa de "antigamente". Porra, ninguém se lembra de fazer um sobre a Lisboa do futuro? Esse é que sim interessava. Deixem os antigamente aos historiadores e dediquem a pieguice a outras merdas. Fodam com o futuro, porra! e deixem de assediar o passado.

Matar o tempo? Para quê? Ele sobrevive sempre

Não deixa de ser espantoso que o tempo tenha sobrevivido a todas as tentativas de o matar que já foram feitas.

11.2.18

Retórica e vertigens

Calasso, outra vez: "de que falam os escritores quando nomeiam os deuses? Se esses nomes não pertencem a um culto - nem mesmo a esse culto no sentido figurado que é a retórica -..."

Tentei substituir retórica mas nada funciona: nem palavra nem literatura nem mesmo poesia. Ao princípio era a retórica e a retórica era Deus....

[A citação continua: "...qual será o seu modo de existência? "Os deuses tornaram-se doenças", escreveu uma vez Jung com uma brutalidade esclarecedora".]

Fica para depois. O meu sistema imunitário luta contra um vírus qualquer que me enche de vertigens e vou ajudá-lo, dormindo. De Jung conheço pouco mais do que do sexto ano do liceu dele retive (o inconsciente colectivo, tão bem desmontado por Guy Scarpetta no Eloge du Cosmopolitisme), mas tanta antecipação na clarividência é quase vertiginosa.

Em cada página um espelho

Calasso, ainda no ensaio sobre Mallarmé (a propósito, o livro chama-se La Littérature et les Dieux e as traduções são minhas, com tudo o que isso implica): "há um sentimento muito forte e muito antigo, raramente nomeado e reconhecido: o da angústia devida à ausência de ídolos".

Reconhecer-se - ou melhor, ver-se descrito - num livro no qual se pegou quase (quase) por acaso só não é assustador porque no buraco não há razão para se ter medos. Só há lugar para as gratidões (assim mesmo no plural, apesar de não serem todas iguais).

Cosmogonia enfim revelada

"Se os deuses não fazem nada de inconveniente então não são deuses".

Passo a história da frase - é de Mallarmé e o tema do ensaio de Calasso com o qual entrelaço Ponta Gea e os meus disparates - para chegar ao essencial: um dia terei tempo para explicar que este é provavelmente o principal pilar da minha cosmogonia.

10.2.18

Ponta Gea, música

Ponta Gea, de João Paulo Borges Coelho é uma obra musical na qual as notas são as letras. É possível identificar no texto os três componentes da música - o ritmo, a melodia e a harmonia. 

Altos e baixos, Friederich

Nietzsche falava muito da solidão dos cumes. Conheço melhor a do abismo.

Disparates, spaghetti e salsichas

Escrever disparates, muitos, reflexo do violentíssimo Inverno que não tem maneira de parar de começar, parece que começou agora e vai durar para sempre, não vai acabar nunca, isto é Inverno em tudo quanto é sítio, lá fora e cá dentro e assim como não ter vontade de dizer disparates uns a seguir aos outros, fazer troça do sacana, pôr as mãos espetadas no nariz, polegar primeiro e os dedos esticados e abertos como quando éramos putos, língua de fora, quem chama é quem é, pata que o pôs mai-lo frio e os ouvidos e a falta de guito e o polaco que não há maneira de dizer nada, safa-se a Amália e a bolognese que não é bolognese, é feita com carne de salsicha, tem outro nome mas por mais que não puxe pela memória estou-me nas tintas para o nome do prato (não estou, fui procurar no Google: spaghetti alla salsiccia, mas não era este que eu tinha cá no recanto das alembranças), isto nem os disparates saem correctos, mais valia limpar as mãos à parede e estar quedo.

Enfim, o molho parece que não vai ficar mau de todo, ao menos isso. Não safa o Inverno mas aligeira o jantar.

De resto

Em noites assim prefiro estar sozinho. Pelo menos não chateio ninguém, com a possível excepção do telefone, qui me la rend bien, de resto.

Noite, descanso, vertigens

Deve temer-se a noite que não é um descanso?

Depende do que o perturba, de quem. Em certos casos mais vale ficar-lhe à porta, não entrar nem "gentilmente nessa noite".

O uso do adjectivo "vertiginoso" vai começar a ser severamente racionado, para não dizer punido.

Lautréamont, vertigens e outras coisas insignificantes

Um quadrilátero cujas arestas são Amália Rodrigues, Calasso (e Lautréamont), pão caseiro e algumas edições da Colóquio Letras e o centro um ouvido interno avariado.

Não para sempre, claro. Mas a vertigem é como o amor, infinita enquanto dura.

Por mim se pudesse mandá-la-ia para a pata que a pôs e continuaria no Calasso. Deixo-a acreditar que ganhará: é preciso ser Maldoror. Lê-lo não chega.

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No meio disto tudo pergunto-me porque se tornam os velhos piegas, quando devia ser ao contrário: já vimos onde leva o amor e todos sabemos - pelo menos depois de uma certa idade e antes de outra - que a sua ausência é muito melhor.

A razão é simples: o sexo só é bom quando vem em embalagens múltiplas. Em doses individuais o amor é preferível: demora mais tempo a fazer-se e menos a desfazer-nos.

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Leio o ensaio de Calasso sobre Lautréamont e lembro-me das inúmeras noites que passei a lê-lo a bordo do R. C., num camarote apinhado de marinheiros, colegas oficiais e um Imediato que o abominava, mas gostava de ler Pessoa - sobretudo o Se te queres matar.

O whisky corria à flots, a travessia do Pacífico nunca mais acabava - nunca acabou, na verdade, se não com a chegada ao Suez; Nakhodka e as Filipinas e o Estreito de Sumatra e o Indico todo ainda eram o Pacífico - e Maldoror dizia-nos que nada daquilo era a sério; nada daquilo era verdade:

"Vieil océan, aux vagues de cristal, tu ressembles proportionnellement à ces marques azurées que l’on voit sur le dos meurtri des mousses ; tu es un immense bleu, appliqué sur le corps de la terre : j’aime cette comparaison. Ainsi, à ton premier aspect, un souffle prolongé de tristesse, qu’on croirait être le murmure de ta brise suave, passe, en laissant des ineffaçables traces, sur l’âme profondément ébranlée, et tu rappelles au souvenir de tes amants, sans qu’on s’en rende toujours compte, les rudes commencements de l’homme, où il fait connaissance avec la douleur, qui ne le quitte plus. Je te salue, vieil océan!

Vieil océan, ta forme harmonieusement sphérique, qui réjouit la face grave de la géométrie, ne me rappelle que trop les petits yeux de l’homme, pareils à ceux du sanglier pour la petitesse, et à ceux des oiseaux de nuit pour la perfection circulaire du contour. Cependant, l’homme s’est cru beau dans tous les siècles. Moi, je suppose plutôt que l’homme ne croit à sa beauté que par amour-propre ; mais, qu’il n’est pas beau réellement et qu’il s’en doute ; car, pourquoi regarde-t-il la figure de son semblable avec tant de mépris ? Je te salue, vieil océan !

Vieil océan, tu es le symbole de l’identité..."

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Mais tarde veria Weekend e perceberia que os Cantos são uma das formas da verdade, onde quer que sejam declamados. Verdade do avesso, mas verdade.

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Vertiginoso, tudo isto, misturado num poço de vertigens actuais, memórias, uma irreprimível vontade de voltar à verdade original, sem cor nem dor, sem ouvido interno nem amor.

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Tubaroa, onde páras? Quando pararás para mim?

"Debout sur le rocher, pendant que l’ouragan fouettait mes cheveux et mon manteau, j’épiais dans l’extase cette force de la tempête, s’acharnant sur un navire, sous un ciel sans étoiles. Je suivis, dans une attitude triomphante, toutes les péripéties de ce drame, depuis l’instant où le vaisseau jeta ses ancres, jusqu’au moment où il s’engloutit, habit fatal qui entraîna, dans les boyaux de la mer, ceux qui s’en étaient revêtus comme d’un manteau. Mais, l’instant s’approchait, où j’allais, moi-même, me mêler comme acteur à ces scènes de la nature bouleversée. Quand la place où le vaisseau avait soutenu le combat montra clairement que celui-ci avait été passer le reste de ses jours au rez-de-chaussée de la mer, alors, ceux qui avaient été emportés avec les flots reparurent en partie à la surface. Ils se prirent à bras-le-corps, deux par deux, trois par trois; c’était le moyen de ne pas sauver leur vie; car, leurs mouvements devenaient embarrassés, et ils coulaient bas comme des cruches percées… Quelle est l'armée de monstres marins qui fend les flots avec vitesse ? Ils sont six; leurs nageoires sont vigoureuses, et s’ouvrent un passage, à travers les vagues soulevées. De tous ces êtres humains, qui remuent les quatre membres dans ce continent peu ferme, les requins ne font bientôt plus qu’une omelette sans œufs, et se la partagent, selon la loi du plus fort. Le sang se mêle aux eaux, et les eaux se mêlent au sang. Leurs yeux féroces éclairent la scène du carnage… Mais, quel est encore ce tumulte des eaux, là-bas, à l’horizon. On dirait une trombe qui s’approche. Quels coups de rame ! J’aperçois ce que c’est. Une énorme femelle de requin vient prendre part au pâté de foie de canard, et manger du bouilli froid. Elle est furieuse, car, elle arrive affamée. Une lutte s’engage entre elle et les requins, pour se disputer les quelques membres palpitants qui flottent par-ci, par là, sans rien dire, sur la surface de crème rouge. À droite, à gauche, elle lance des coups de dents qui engendrent des blessures mortelles. Mais, trois requins vivants l’entourent encore, et elle est obligée de tourner en tous sens, pour déjouer leurs manœuvres. Avec une émotion croissante, inconnue jusqu’alors, le spectateur, placé sur le rivage, suit cette bataille navale d’un nouveau genre. Il a les yeux fixés sur cette courageuse femelle de requin, aux dents si fortes. Il n’hésite plus, il épaule son fusil, et, avec son adresse habituelle, il loge sa deuxième balle dans l’ouïe d’un des requins, au moment où il se montrait au-dessus d’une vague. Restent deux requins qui n’en témoignent qu’un acharnement plus grand. Du haut du rocher, l’homme à la salive saumâtre, se jette à la mer, et nage vers le tapis agréablement coloré, en tenant à la main ce couteau d’acier qui ne l’abandonne jamais. Désormais, chaque requin a affaire à un ennemi. Il s’avance vers son adversaire fatigué, et, prenant son temps, lui enfonce dans le ventre sa lame aiguë. La citadelle mobile se débarrasse facilement du dernier adversaire… Se trouvent en présence le nageur et la femelle du requin, sauvée par lui. Il se regardèrent entre les yeux pendant quelques minutes; et chacun s’étonna de trouver tant de férocité dans les regards de l’autre. Ils tournent en rond en nageant, ne se perdent pas de vue, et se disent à part soi : “Je me suis trompé jusqu’ici; en voilà un qui est plus méchant.” Alors, d’un commun accord, entre deux eaux, ils glissèrent l’un vers l’autre, avec une admiration mutuelle, la femelle de requin écartant l’eau de ses nageoires, Maldoror battant l’onde avec ses bras; et retinrent leur souffle, dans une vénération profonde, chacun désireux de contempler, pour la première fois, son portrait vivant. Arrivés à trois mètres de distance, sans faire aucun effort, ils tombèrent brusquement l’un contre l’autre, comme deux aimants, et s’embrassèrent avec dignité et reconnaissance, dans une étreinte aussi tendre que celle d’un frère ou d’une sœur. Les désirs charnels suivirent de près cette démonstration d’amitié. Deux cuisses nerveuses se collèrent étroitement à la peau visqueuse du monstre, comme deux sangsues; et, les bras et les nageoires entrelacés autour du corps de l’objet aimé qu’ils entouraient avec amour, tandis que leurs gorges et leurs poitrines ne faisaient bientôt plus qu’une masse glauque aux exhalaisons de goémon; au milieu de la tempête qui continuait de sévir; à la lueur des éclairs; ayant pour lit d’hyménée la vague écumeuse, emportés par un courant sous-marin comme dans un berceau, et roulant, sur eux-mêmes, vers les profondeurs inconnues de l’abîme, ils se réunirent dans un accouplement long, chaste et hideux !… Enfin, je venais de trouver quelqu’un qui me ressemblât !… Désormais, je n’étais plus seul dans la vie ! Elle avait les mêmes idées que moi !… J’étais en face de mon premier amour !"

8.2.18

Vai de burra

O motor da burra tem andado a falhar um bocadinho e o mecânico é longe; por isso resolvi voltar para casa de transportes públicos. Estava em Algés, apanhei o comboio para o Cais do Sodré e o metro até ao Parque. Demorei o mesmo tempo ou (pouco) mais do que teria demorado se tivesse pedalando o caminho todo.

Não sei se fique orgulhoso se revoltado.

7.2.18

Pesadelo

Tive um pesadelo. Sonhei (o verbo é antitético) que o médico me "proibia" (entre aspas: um médico pode, quando muito, sugerir) de andar de bicicleta. Imaginei uma série de diálogos que desaguou neste: "só a bicicleta me proíbe de andar nela. É a única que sabe se a posso montar ou não".

Não transpira elegância, mas é o que um pesadelo destes merece.