10.12.17

Como se estivesses aqui

Façamos assim então: tu deitas-te nesta cama de palavras que para ti metodicamente faço; deito-me ao teu lado e ao mesmo tempo vou compondo a cama, como se fosses um livro.

Amanhã acordamos, tu silenciosa como se não estivesses aqui e eu feliz como se estivesses.

Limites, palavras

Ou seja, podemos imaginar uma cena assim: em vez de te beijar descrevo o beijo, em vez de te amar falo da falta que amar-te faz?

Talvez seja por essas bandas que os limites da palavra andam, não é? 

Querida abstracta

Queria tanto escrever-te em concreto e só o posso fazer em abstracto-te. 

Maus tempos

Está um badanal de merda. O FURANAI geme, puxa pelos cabos, encosta-se ao pontão, adorna sem panos. Pede-me para ir para o mar, que é o lugar de uma embarcação quando está mau tempo.

Comigo passa-se o mesmo: cada vez que me faço à porrada da terra acabo no mar, porque é lá que estou bem.

Desta vez vou aguentar, como o bote onde durmo e cujos gemidos me partem o coração aos bocados. "Somos um!"

A tristeza de hoje é a de amanhã

De uma coisa há que estar grato à tristeza: é um poderoso afrodisíaco. Quando estou triste lembro-me de todos os seios que toquei, todos os ventres que me acolheram, dos olhos que me prometeram o mundo e tantas vezes me levaram ao céu.

Quando estou feliz contento-me com o que tenho à mão. Verdade seja dita, tento partillhar a felicidade, na medida do poder e do saber. Mas - ah! - aquele desfilar de corpos e de promessas da tristeza não tem rival na alegria.

A menos, claro, que veja nesta de hoje aquela de amanhã.

Quando a esquerda era legível

Ivan Illich no "Inverter as Instituições":
"Essa mesma ausência de limites força as pessoas, numa sociedade "móvel", a passar várias vezes por dia de gaiolas fixas para gaiolas móveis". 

Pergunta

Se se descrevessem os sistemas políticos e o quadro sócio-cultural de Israel e dos países vizinhos obliterando o facto de um desses países ser judeu qual deles uma pessoa da esquerda ocidental apoiaria?

8.12.17

Onde estamos

De volta às coisas volvidas: já te disse tudo. Nada há que te diga hoje que ontem não soubesses.

Estarias tu bem melhor aqui ou eu aí do que tu aí e eu aqui. Estamos errados, tu aí e eu aqui: antes fazermos meia troca e vires tu ou ir eu.

Quanto mais não seja para ambos vermos a diferença que há sem nós entre aqui e ali.

Connosco seriam a mesma coisa, o mesmo lugar: tu és onde eu estou e eu onde tu és. 

O que são e o que sabem

As mulheres feias que se sabem feias e as bonitas que se sabem bonitas têm um problema comum: devem corresponder mais àquilo que se sabem do que ao que são. 

Amor e comboios

Dizer que não te amo é mentira e que te amo um exagero. Imagina que és a agulheira da linha de comboios: ele vai para onde tu o apontares.

E eu nele.

7.12.17

Erros, mulheres ouvintes

"Foste o meu maior erro", dizia-lhes Zero todos os dias, a todas. (No sentido de "foi um erro ter-te deixado fugir, ter-te perdido").

Elas gostavam. Zero tinha tido um número incalculável de casos (sendo um caso ter passado mais de dez minutos num banco de jardim a dizer-lhe Amo-te e a ouvir Não digas disparates, desde que ela o deixasse mexer-lhe nas mamas) e fazê-las crer que lamentava profundamente não terem ido mais longe enchia-as de satisfação.

O erro não era o que elas pensavam.

"Percebes", dizia-me "tudo o que seja acima de uma caixeira de supermercado ou senhora das limpezas é demasiado para mim. Por uma razão qualquer só engato intelectuais, artistas e mulheres que pensam".

"E ouvem o que eu digo", acrescentava com o ar mais desolado que jamais vi.

Sentimentos, um monólogo acidental

"Estroinice sentimental", diz ela. Estroinices há muitas, eu sei; todos sabemos. Mas há ele sentimentos que não sejam estróinas? Não, não há. Quem nunca disse "aquele gajo é um filho da mãe, mas é meu amigo"? Ou "A mulher é burra como um penedo, mas eu amo-a"?  Que atire a primeira pedra. Os sentimentos são selvagens, são como um bêbedo numa taberna da qual o taberneiro fugiu (por amor, claro) e deixou tudo à mão. Que faz o bêbedo? Benze-se e vai-se embora? O tanas! Atira-se ao vinho e às aguardentes e às ginginhas e às cervejas quando o resto tudo estiver acabado. Pois os sentimentos são assim como a sede do bêbedo: incontroláveis. Levamos anos a tentar domesticar a amizade, o amor, a tentar civilizá-los, dar-lhes uma aparência cordata, de fato e gravata, sapatos pretos e meias a condizer com a camisa e vamos a ver parecem hippies acabados de acordar, olhos estremunhados das passas e cabelos desgrenhados dos sonhos.

Estou-me nas tintas para os sentimentos. Deixo-os fazer o que querem. Que voem como cavalos loucos ou se escondam nos buracos das rochas como rãs. Tudo, desde que me deixem em paz. De resto os meus, coitados, não podem com uma gata pelo rabo. Parecem sobreviventes de Verdun, esgazeados, rotos e famintos. Não dou um chavo por eles. Talvez um dia encontrem uma casa de repouso, vai lá saber; talvez alguém um dia lhes consiga refazer uma saúde, dar-lhes cores novas e pô-los a correr. Duvido muito, mas não é impossível. Entretanto deixo correr. Tenho a loja fechada, mas o que por aí não falta é quem os tenha a todos como novos, como se nunca tivessem sido usados ou ido à guerra.

Eu fui a muitas. Voltei delas surdo, graças a Deus. E quase cego: não vejo nada nem oiço. Não sei onde páram os meus sentimentos nem quero saber: eles que vão bater a outra porta. Pode ser que tenham sorte e encontrem quem trate deles. Ou até outros iguais: são como as mulas, gostam de andar aos pares.

O post ia ser uma coisa e acabou por ser outra

O post ia ser sobre amores, dores, rios, marés, Luas, meia dúzia de nuvens... Merda. Farto de rios e de amores lunáticos, de nuvens que choram as dores em chuvas diluvianas e de céus cinzentos indiferentes às marés. Quero vida. Mulheres ruivas resistentes aos químicos, pratos demasiado cheios nos restaurantes, taxistas que páram para me deixar passar na bicicleta sem que eu me tenha atirado para debaixo dos pneus ou contra a grelha do radiador. Quero ruas cheias de buracos, a ideia de que ao longo do tempo só o acessório muda e nada do essencial mas esse acessório vai evoluindo e não tarda deixa de se distinguir do que é importante.

"Uma simples mutação genética" na molécula do acessório é quanto basta. As mutações genéticas mais complicadas - por exemplo, as que fossem capazes de fazer de mim um gajo cheio de massa - demoram muito tempo e requerem um monte de acessórios - o menor dos quais não será certamente um ventre pronto a gerá-las, organizá-las e finalmente pari-las.

"Tudo isto porque" há dois tipos de evolução genética: para melhor (por exemplo, as que produzem mulheres ruivas) e para pior (as que mantêm o que existe). Ainda está por descobrir uma "simples mutação genética" radical, que faça da merda ouro em pepitas, notas de quinhentos euros ou de mim um gajo sensível ao zeitgeist.

Aí está: o post afastou-se tranquilamente da sua origem e agora a ela regressa como se nada no meio se tivesse passado.

Primeiro passo

Eu já dei os primeiros dez mil passos. Agora tens de ser tu a dar o primeiro.

6.12.17

Diário de Bordos - Lisboa, 06-12-2017

Hoje [enfim, ontem] fui à Voz do Operário e comprei um livro, desta vez a um euro. É uma edição de bolso francesa de um livro de Henry Miller sobre os seus amigos. Pode não ser inesquecível, mas vale muito mais do que um euro. Não sei onde é que a Voz vai buscar estas pérolas. Havia também uma edição portuguesa da Creezy, de Félicien Marceau mas não o comprei nem por um euro. Marcou-me muito, quando era adolescente e ainda tenho presente o horror da tradução do Illich que de lá levei no outro dia (apesar de estar feliz como um abade a relê-lo).

Seria tão bom, se me aparecesse trabalho como aparecem livros.

Ou amigos. É sempre difícil - enfim, é impossível - um gajo avaliar-se bem. Mas nunca me esqueço de que quem tem amigos como eu tenho não pode ser completamente má pessoa.

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Vem aí o frio e enfrento este inverno como se fosse um teste. Vejo fotografias dos sítios que amo e pergunto-me se é verdadeiramente só o dinheiro que me faz ter vontade de lá estar. Não sei. A verdade é que agora arranjei a desculpa perfeita para ter de ficar aqui e vou ficar: "com a saúde não se brinca". De qualquer forma só o saberei quando tiver trabalho aqui. Até lá é uma falsa questão.

E aproveito ponho a máquina a funcionar. "Zero quilómetros", diria um vendedor de automóveis. Pata que os pôs aos vendedores mai-los quilómetros. Se isto continuar como tem vindo já fico feliz. Basta um bocadinho de cuidado e a coisa responde como um barco de regatas com os panos bem mareados, ou uma mulher contente e saciada: com um suspiro, uma doçura e um "continua" sussurrado ao ouvido. "Continua" diz-me a máquina. "Trata de mim". Trato, claro.

Não lhe peço muito em troca. Que me deixe levar a vida como gosto e não me force a desmontar nas subidas. É um bom pacto: eu trato dele e ele não me chateia. Não preciso que dure muito tempo, mas que enquanto por cá andar mo deixe fazer em paz e sossego. Uns copos, livros e um amor ou outro de vez em quando. Quando se apagar a luz que se apague de vez e para tudo, que isto de viver numa casa da qual metade dos quartos estão fechados é aborrecido.

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Amanhã vou conhecer o Alqueva. Não tarda conhecerei a terra de lés a lés e de norte a sul.

5.12.17

Penálti

Descobri hoje que afinal tenho uma relação com o futebol. Longínqua, mas relação: bebo vinho de penálties.

Releituras e farrapos - II

Por falar nisso: alguém se lembra de Althusser (refiro-me à ideologia, não ao assassínio)? Os PC detestavam-no, mas isso não significa que estivesse certo, claro. Em Genebra vivi umas semanas em casa de um althusseriano cuja teoria foi levada aos limites: "Como é que um imigrante ilegal como tu, explorado, vítima de um sistema pode ser de direita?"

"Vai rever a tua teoria da interdependência da base e da superstructura. Talvez não seja correcta. Além de que não sou vítima de nada nem de ninguém, com a possível excepção de mim mesmo". Passei a ser considerado - amigavelmente - um traidor da classe operária (o que eu não era. Trabalhava nos serviços). O senhor seria um dia professor universitário (sociologia, naturalmente), com nome feito na praça. Na altura era assistente. Um dia perguntei-lhe "Tu não devias ser de direita?" e ele escandalizou-se. Amigavelmente, claro. Éramos amigos e em casa dele reencontrei a senhora que anos mais tarde seria minha mulher.

Hoje lêem Zizek e Raquel Varela, coitados. E vão ao Tinder.

Estragar, novas gerações

Todas as gerações dizem que a seguinte só pensa em estragar o que encontra. Isto é assim desde os textos mais antigos que se conhecem.

Mas a verdade é que hoje se vive melhor do que há cem anos e há cem anos se vivia melhor do que há duzentos e por aí fora.

Talvez seja tempo de rever o nosso conceito de estragar. As novas gerações já mais do que provaram desde há milhares de anos que são capazes.

Releituras e farrapos

Releio Illich, que foi durante alguns anos um dos meus autores de cabeceira. Mudei bastante, claro, mas ainda jubilo com a justeza de algumas das análises do homem (só mudei o lado do ponto de vista, como um foco num palco ilumina o actor primeiro de um lado e depois do outro).

Não é nisso que penso. Penso em Illich, Debord, Vaneigen, Marcuse, Reich. Penso naquele artista cujo nome agora não recordo, de quem mais tarde fiquei amigo, o gajo dos robots artistas e da primeira banda desenhada situacionista que vi em português (e provavelmente a única). Comparo essa malta com os Zizek e as Varelas de hoje e percebo porque está a esquerda de hoje como está: parece a sombra de um farrapo da caricatura de uma ilusão. 

4.12.17

Momentos de fraqueza e sabedoria feminina

- Senhor Doutor Juiz, isto aconteceu-me num momento de fraqueza. Fraquejei. Não me aguentei.
- Fraqueza? Como seria se estivesse num momento de força. Você quase a desfez.
- Senhor Doutor Juiz: o problema foi com a loiça do jantar. Está Vocemecè (com todo o respeito) a ver. Eu gosto de lavar a loiça. Mas ela não quer que eu faça seja o que for naquela casa. Diz que se eu trabalhar na casa é como se começasse a fazer parte da família e ela não me quer. Isto é. ela quer-me lá em casa pela companhia, mas não posso lavar a loiça, senhor Doutor Juiz. Simbólico, diz ela. Simbólico. Olhe (com todo o respeito) hoje saltou-me o testo e pronto. Dei-lhe dois tabefes pelo simbólico.
- Você vai ter de aprender a contar, senhor Zero. Mas devo dizer-lhe que é a primeira vez que julgo um caso de violência doméstica provocado por um homem não poder lavar a loiça.
- Elas sabem tudo, Senhor Doutor Juiz. Atrás da loiça vem o resto e é isso que ela não quer. É por isso que gosto tanto de lavar a loiça: o que vem a seguir é tão bom!

Diário de Bordos - Lisboa, 04-12-2017

A novela do hostel "Sal e azul" (não googlem, não vale a pena) acabou, finalmente: a senhoria não queria o aquecimento no quarto, ponto parágrafo. E eu não queria o quarto sem aquecimento, ponto parágrafo.

Dois pontos parágrafos de sinal contrário dão um ponto final, como bem sabem todos os que se interessam pela álgebra das letras. Voltei para o S/Y FURANAI, que é - para quem não sabe - o melhor veleiro a fazer passeios no Tejo. Isto poderia ser dito por causa da gratidão (e não teria nada de mal, se assim fosse) mas não é: é uma opinião objectiva baseada em factos e no já longo tempo que levo de trabalho com o barco e respectiva tripulação - que inclui uma das melhores stews com quem já me foi dado navegar, e toda a gente sabe a importãncia fundamental que uma stew eficaz, competente, simpática (e bonita, não estraga nada) tem para o charter, seja ele à hora, ao dia ou à semana -.

De maneira constipo-me à ida para Belém e à vinda de Belém, maldigo o frio - há sete anos que não tenho frio ou pelo menos a perspectiva de passar um inverno inteiro a tê-lo e este ainda mal começou - e procuro trabalhos, no plural. Tudo o que vier à rede é peixe e será aceite sem discussão, ou com muito pouca, vá.

Os trabalhos que procuro dividem-se em três tipos: desinteressantes mas que paguem, interessantes mesmo que não paguem e - isso existe - interessantes e que paguem. Tenho um ou dois de cada categoria no espeto; vamos ver qual ou quais deles saem primeiro.

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Enfim, constipo-me deixou de ser o verbo adequado. Merda! para o frio.

3.12.17

Memória, futuro

É difícil dizer adeus a um corpo. Ou boa noite: o sono chega antes de os esperarmos e depois de fazermos por ele. Melhor dizer-te boa noite agora, antes de o sono chegar e de fazermos por ele. É que por cima do corpo há uma mente, uma memória e um futuro.

Um passo

Traçar linhas num jardim, entre os relvados e as tijuanas. À frente um teatro, atrás um rio: caso para se dizer que estamos entre o martelo e a bigorna. Ir a direito é impossível, às curvas arriscado.

Resta-me pensar em ti, no teu ventre adolescente, nos seios que me preenchem as mãos, tão vazias. Tijuanas e linhas rectas: de um jardim a ti vai um passo.

Amor e cartas

Chegou provavelmente a altura de escrever uma carta de amor. Faz anos que não escrevo uma.

Carta. Amor faz menos.

Definição - O que temos de fazer?

Antigamente as coisas eram diferentes: não estávamos tão perto da morte. Isso - ou ela- muda tudo. Morrer deve ser bom, se já tivermos feito o que tínhamos de fazer.

Difícil é definir o que temos de fazer.

Ornette e o sol

Oiço Ornette Coleman no computador. O som é horrível, mas lembro-me do original e compenso.

E penso quão complicado é falar de nós com pessoas que não pensam como nós. Pensar não é o termo, mas não sei qual é. A ideia que me vem à mente é a de planetas em torno de um sol: as órbitas não se cruzam, se houver um sol só.

Mas: e se houver vários?

Diário de Bordos - Lisboa, 03-12-2017

Boa música é aquela que nos fala de turbilhões. Claro que há várias maneiras de se falar de turbilhões e vários turbilhões dos quais se falar. É preciso não os misturar. Leonard Cohen, Jacques Brel, Miles Davis, Ornette Coleman (este não fala de turbilhões. É um turbilhão). Não sei classificar ou ordenar os turbilhões. Patrick Suskind escreveu um texto sobre contrabaixos e agora oiço um, sublime.

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Em Atenas há um bar assim (pelo menos); mas é maior e mais bar. Em Paris e Londres há muitos. Em Barcelona não há nem um, o que só demonstra que é a cidade mais provinciana do mundo, logo a seguir a Miranda do Corvo, Évora ou Palhais de Baixo.

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Privilégio é um gajo poder entrar num bar e ouvir música que lhe faz - simultaneamente - vir lágrimas aos olhos e pensar em Ornette Coleman, duas coisas contraditórias s'il en est -.

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Entre Miles e Coleman venha o diabo e escolha meio milhão de outros: ou um milhar. A música não é questão de nomes. Isto é: normalmente a minha primeira reacção é: "Vão para a puta que vos pariu". Depois precisam de voltar de lá, da puta que vos pariu.

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Não percebo nada de música, mas percebo de turbilhões, de sentimentos e da mistura dos dois.

Sobretudo quando os turbilhões se transformam em quedas de água.

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Marcelo dos Reis - Guitarra
Niels Vermoulen - Contrabaixo.

No Irreal, claro.

2.12.17

Auto-quase-retrato

Há pessoas que são de compreensão lenta; eu sou de sedimentação lenta.

Razoabilidade e Kavafys num só post e todos sabemos quão imiscíveis são

Há bocadinho entrei numa livraria - uma das minhas favoritas em Lisboa, chama-se muito apropriadamente [segue-se o nome] e é daquelas que dá vontade de comprar todos os livros mai-las estantes - e saí sem comprar livro algum, zero, nix oberlix, apesar de terem acabado de receber (acabado: os livros ainda não tinham o preço marcado) uma nova edição da obra completa ou quase completa do Kavafys numa nova tradução. O livro custava [segue-se o preço] e não o comprei.

[A esta hora a livraria já fechou, seja Deus louvado.]

Estou a comer uma bifana no [segue-se o nome]  e pergunto-me se não devia trocá-la por meio Kavafys, meio. A resposta é não, claro. Não tarda poderei comprar o Kavafys todo mais metade de outro qualquer. Mas porra! Porra! Porra! Ser razoável é uma praga, uma sarna, peste bubónica, é pior do que ser coxo e cego, pior do que não ter mulher nem filhos, pior do que não ser selectivamente surdo e ser obrigado a ouvir tudo o que se passa à nossa volta, pior do ter frio à noite ou ter de andar de autocarro sem comprar bilhete.

(Para o V., e para a A. I., com um abraço e um beijo, respectivamente, ambos gratos e agradecidos e tudo.)

Telenovela "Hostel de Sal e Areia"

Personagens: 
Senhoria: chinesa, dona do prédio todo. Só fala mandarim. É gananciosa, desconfiada e deprimida. Errática, lunática, confusa. Frequentemente esquece-se de que para gerir um hostel em Portugal é conveniente falar inglês e ou português.

F., gestor / explorador do hostel: jovem dinâmico, malaio de origem chinesa. Fala inglês, mandarim, cantonês, taiwanês e provalmente malaio, claro. É proprietário de uma guest house na Malásia e veio para Portugal porque se apaixonou online por uma jovem sino-lusa. Gere - isto é, geria, quando cá cheguei - os dois primeiros andares; o terceiro era gerido pela proprietária. Agora gere os três andares, no seguimento de vários episódios.

D., funcionária do hostel, a estalajadeira: jovem simpática e bonita que faz a ponte entre os hóspedes, a senhoria e F., o gestor (que de resto em chinês não se chama F.: adoptou um nome europeu que dá mais ou menos para todas as línguas. Não sei  se tem uma relação com o seu nome chinês). Para além de bonita é inteligente e estuda japonês. Trabalha muito porque a senhoria despediu - num esforço de contenção de custos - outra funcionária com quem cheguei a cruzar-me brevemente. Nem sempre está no hostel, o que é compreensível, para dizer o mínimo. Na sequencia de um dos episódios F. forçou a senhoria a readmitir a colega para as limpezas, pelo que se pode esperar mais continuidade nesse importante segmento da actividade hoteleira.

Disse que a senhoria é lunática mas não é bem verdade: muda de opinião mais depressa do que a Lua muda de posição no céu. Talvez "comética", se existisse a palavra a definisse melhor. É gananciosa e desconfiada: pensa que F. a rouba, mas como não sabe falar português nem inglês está ligeiramente limitada.

D. e a senhoria comunicam ou via F. ou via Google translator. Mostram-se os telefones uma à outra, como se estivessem num jogo qualquer de cartas ou de futebol.

Enredo:
Já estive para sair do hostel três vezes, já me mudaram as condições duas e hoje, quando perguntei a F. se a situação com a senhoria estava estabilizada ele respondeu (a tradução é minha):
- Isso não te posso dizer. Com esta senhora nunca se sabe. Nunca nada está estabilizado.

No último episódio não fui a única vítima: D. passou a noite a empacotar tudo - pertences dela e de F. porque íamos todos sair (eu por solidariedade e porque não queria depender directamente da senhoria; é preciso um amortecedor e tradutor, eventualmente) - . De manhã quando saí para o pequeno-almoço (que em princípio estaria incluído, mas a senhoria cortou nos custos e o café deixou de ser potável; só há Nescafé, diluído homeopaticamente: um grão de pó de Nescafé para dez litros de água) estavam os dois sentados em tranquila cavaqueira. Deduzi acertadamente - ganhasse eu dinheiro com a minha intuição e seria mais rico do que o Gates e o Buffet juntos - que não sairíamos. Não saímos.

Comentários:
O hostel tem algumas qualidades - é limpo (quando a jovem e adorável estalajadeira anda por cá, o que nem sempre acontece. Agora por exemplo está de férias: como íamos todos sair F. deu-lhe uma semana de férias, de que ela aproveitou uns dias para ir ao Algarve com o namorado e uma amiga), está bem situado e é calmíssimo. E um defeito: os quartos são glaciais. Trouxe um aquecedor que tinha em casa da A. I. Suspeito que se a senhoria o descobrir vai querer aumentar a renda, que com o último aumento deixou de ser barata e começou a estar na fronteira entre o normal e o aceitável. Mais um aumento e fica normal, ou seja, inaceitável.

Estou na Almirante Reis, a norte do Intendente e a Sul da praça do Chile: rodeado de chineses, portugueses, indianos, nepaleses, bangladeshis, brasileiros, turcos e de vez em quando um ou outro cigano, a dois passos da Portugália. O hostel tem um nome que vai bem com a minha profissão (a anterior, espero); proporciona-me uma experiência televisiva na vida real e tem muito perto um café delicioso e uma senhora que passa camisas a ferro por um preço a que só a decência me impede de chamar simbólico. O aquecimento aquece, o quarto tem bastante luz natural e uma secretária pequenina onde escrevo e pouso as coisas do fim do dia.

Queixar-me seria talvez telenovelesco mas de certeza injusto.

[Adenda: isto não significa, naturalmente, que não haja motivos para me queixar. Há. Mas este blog não se inscreve na escola neo-realista. Inscreve-se em nenhuma, como a maioria dos seus generosos e tolerantes leitores terá visto. Ou talvez numa: a escola de literatura chico-anisiana, tendência hienas. Os leitores da minha geração saberão do que falo.]

Geometria e trigonometria

É de noite que as hipotenusas se tendem, os ângulos se fecham, os senos e os co-senos se tangenciam; no vasto espaço geométrico da noite.

[Adenda: esquecia-me da secante. Sabia que me faltava uma função, mas não me lembrava de qual. Esqueço-me sempre de mim.]

Cena da vida doméstica, com manta e lareira

As noites frias prestam-se a todo o tipo de exercícios, desde fazer amor numa cama cheia de edredons a beber um shot de rum num bar a caminho de casa. Também há quem tente fazer amor num jardim, coberto por camadas e camadas de roupa, ou ler um livro à lareira com um cálice de Porto na mão direita, uma manta pelos joelhos e um livro na mão esquerda. Pode deixar-se cair o livro se por acaso a mão da senhora que se ama afasta a manta e aproxima os lábios pelas coxas acima até se abrirem e quase engolirem o membro que agora corresponde cortesmente à solicitação inesperada.

Digamos inesperada, mas poderia não o ser, claro. É plausível que a personagem masculina desta história tenha planeado a cena e estivesse, enquanto lia, com a mente noutra coisa. A expectativa tem algumas vantagens sobre a surpresa; e uma desvantagem grande: a surpresa é passado. Já passou. Aconteceu. A expectativa refere-se ao futuro: virá? Que estará ela a fazer?

Forçoso porém é reconhecer que a expectativa sem ansiedade, a expectativa da qual a ansiedade se ausentou ou escondeu é superior à surpresa.

Temos assim neste momento uma senhora ajoelhada à frente de um homem que há pouco lia enquanto bebia devagar um cálice de Porto. Agora não lê. Fecha os olhos, acaricia a cabeça da mulher, tenta identificar os fluxos nervosos que lhe sobem do membro. La Logique du Vivant começa mais ou menos assim, não é? Mas François Jacob era médico e a nossa personagem não. Neste momento deixa de se preocupar com a origem do prazer e concentra-se unicamente no prazer ele-mesmo, que tenta separar do amor. Estará apaixonado pela senhora? Esta - que não se vê porque está coberta pela manta, puxou-a de novo para cima deles - agarra-o pela cintura.

Passo os pormenores: já aqui escrevi um texto sobre as técnicas da felação tal como as aprendi em diversos países do mundo e parece-me óbvio que ou a senhora o leu ou já sabia o que lá descrevi. Afinal não é de ontem, a prática; nem mesmo do século passado. E de resto este post não se destinava a falar de felações, mas sim das inúmeras possibilidades das noites frias, potenciadas é certo por uma lareira, uma manta, um cálice de Porto e uma senhora apaixonada (ou pelo menos amiga).

A cena ficaria mais composta, de um ponto de vista puramente visual, se lá fora nevasse; e auditivo também, se no gira-discos (se calhar tudo isto acontece há muito tempo, antes dos CD) tocasse um álbum dos Smiths? Talvez o concerto de Colónia seja mais apropriado; não sei. A quantidade de músicas adequada a esta cena é infinita. Se fosse eu o homem sentado à lareira estaria por exemplo a ouvir Eleni Karaindrou. Music for Films, com Jan Garbarek no sax. Talvez. Não sou. Sou apenas o homem que a escreve, misturando surpresas e expectativas - passados e futuros, para ser mais exacto (o disco saiu em 1991. Há aqui uma diacronia que se resolve facilmente com um encolher de ombros) -.

- Pára - diz o homem. - Vamos para o quarto.

Eles vão; eu fico aqui a ouvir música. Não vou irromper pelo quarto dentro: o amor alheio interessa-me pouco. Sou mais sensível ao frio de uma noite, a uma lareira acesa, a um bom livro e à companhia da senhora por quem um dia estarei apaixonado.

1.12.17

Fórmulas

Podemos olhar para a vida como um livro de geometria ou um tratado instantâneo de trigonometria. Prefiro esta última. Gosto de senos, co-senos e tangentes, secantes, ângulos rectos, hipotenusas e das relações entre essas coisas todas. No liceu era a única parte da matemática na qual era bom a valer: sabia duas ou três fórmulas de cor e com elas resolvia os problemas todos. Para desespero do professor, que criticava a minha falta de conhecimento das fórmulas e elogiava a capacidade de a superar. Para chegar a um resultado trilhava o dobro dos caminhos dos meus colegas, mas raramente me enganava.

Com a trigonometria esférica na Escola Náutica a estratégia funcionava menos bem: era preciso aprender mais fórmulas.

Com a trigonometria multidimensional da vida também não funciona bem, mas por outra razão: não há fórmulas. As funções estão lá. O problema é mesmo a falta de fórmulas já definidas. Há que criá-las para cada vez. Para cada triângulo...

30.11.17

Em defesa de nós

O português está a ser agredido por todos os lados: ele é o AO90, os anglicismos, os brasileirismos, a falta de leitura, a ignorância. Acabo de ler num jornal - enfim, não é bem um jornal, é o jornal - "coloque um termo à vida".

Bolas, há limites, Acho que precisamos não só de um grupo contra o AO90, mas de um grupo pró-língua portuguesa. Uma defesa de nós. Da nossa língua materna. Do que somos.

Infelizmente o jornal está a ficar cada vez mais como os outros. Não escrevesse Alberto Gonçalves lá e ia pelo caminho do Público e do DN.

Definição - Luxo

Luxo é vir tomar o pequeno-almoço a uma padaria que tem dois painéis de azulejos lindos, alusivos - um representa a ceifa outro uma antiga padaria em laboração -, balcão de mármore, paredes de azulejos brancos com um friso azul elaborado, delicado e um LP dos Smiths a tocar num daqueles gira-discos Philips portáteis pelos quais estávamos prontos a matar quando tínhamos dezasseis anos.

Sono

O sono chega, finalmente. Descubro com prazer o prazer que dormir é. Não por ser o fim de um dia, mas o princípio de outro: dormir é o amanhã a chegar, a instalar-se confortavelmente em mim, a agradecer-me a porta que lhe abro. 

Viver-te

É de ti que falo quando falo da vida. Isto é, daquele conjunto de coisas dispersas às quais chamamos vida: um pôr-do-Sol, um miúdo que faz os trabalhos de casa, um cocktail decente num bar inesperado, um aquecedor potente numa noite gélida. Tu és parte dessas coisas todas, és essas coisas todas, estás nelas como a vida em ti e em mim o desejo de viver.

Dir-me-ás que simplifico demasiado, que há tanta vida num aquecedor cujo sistema de segurança decifrei como num bombom de chocolate e mel: pouca, longínqua e irrelevante. Eu ouvirei, direi que sim tranquilamente, como quem respira num jardim ao fim da tarde. De vida sei mais do que tu jamais saberás. Viver-te é mais fácil do que viver.

Diálogos possíveis

- A sua linguagem corporal diz-me o contrário de tudo o que você me tem dito sobre si.
- É que eu não minto só com quantos dentes tenho. Minto com o corpo todo.
- Os corpos não sabem mentir.
- Claro que sabem. Olhe para mim: não lhe parece que estou vivo?